segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A viagem na literatura

Sem tempo para colocar aqui textos artísticos, compartilho com vocês alguns pensamentos críticos sobre a literatura.
Segue o link de um artigo meu publicado na revista Urutágua da UEM, no qual discuto a importância da viagem para a literatura, e, em especial, na literatura de João Guimarães Rosa.
Assim que minha dissertação acabar, volto à ativa!
Abraços a todos!
http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/Urutagua/article/view/9532/6308

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Para não passar em branco... política segundo Guimarães Rosa

Como não estou tendo tempo de manter o blog atualizado, nem de me expressar como eu queria, devido à fase final da minha dissertação de mestrado, vou postar algo relativo a ela. Já que ela me consome e consome meu tempo, vou partilhar com todos os seus bons frutos .
Para não ficar alheia ao ano eleitoral, vou transpor uma passagem da entrevista de Guimarães Rosa a Günther Lorenz na qual ele coloca sua posição diante da política. Embora o escritor tenha sido diplomata, não considerava-se um político, pois não concordava com a postura da maioria deles na época. Afinal, para ele, o político não pensa no homem e seu futuro, já o escritor, acredita no homem e na ressurreição do homem.


"... um diplomata é um sonhador e por isso pude exercer bem essa profissão (...)... eu jamais poderia ser político com essa constante charlatanice da realidade. O curioso no caso é que os políticos estão sempre falando de lógica, razão, realidade e outras coisas no gênero e ao mesmo tempo vão praticando os atos mais irracionais que se possam imaginar. Talvez eu seja um político mas desses que só jogam xadrez, quando podem fazê-lo a favor do homem. Ao contrário dos 'legítimos' políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. Sou escritor e penso em eternidades. O político pensa apenas em minutos. Eu penso na ressurreição do homem".
(Coutinho, 1983:77-78)

Se ainda tivermos políticos que realmente pensam na humanidade e no nosso futuro, talvez haja esperança de um futuro melhor.

sábado, 28 de agosto de 2010

Choro das águas

Posso ouvir agora o barulho das águas
que caem como frios véus,
como o choro sentido das montanhas...

Há quanto tempo não sinto o frescor das cachoeiras...
Água corrente e intensa
que limpa a alma e a mente.

O relaxamento e a paz
oferecidos gratuitamente pela natureza
mas que não sinto há tantos anos.

Hoje sei que é preciso aproveitar a vida
nos seus detalhes...

19 julho 2010.

domingo, 8 de agosto de 2010

A noiva

“Os noivos convidam para a cerimônia de seu casamento a realizar-se no dia...” dizia o convite que Núbia revisava na gráfica. Ficaram como ela esperava, agora era começar a maratona da entrega dos convites de casamento que deveriam ser entregues em mãos, conforme manda a etiqueta, e como ela queria carinhosamente cumprir a regra.
Convites impressos, Núbia segue para casa pensando em todos os detalhes para o grande dia, afinal, nos pensamentos de uma noiva só há lugar para o casamento. Começa a refletir como passou rápido o noivado, aliás, como passou rápido toda a sua vida, desde a infância, quando brincava de casar suas bonecas Barbie com os seus “Bobs” e “Kens”, depois, quando adolescente, achava que o primeiro garoto que a beijasse seria aquele com quem ela se casaria, teria muitos filhos e seria feliz para sempre! Todos os outros fatos que vivenciara até aquele momento significavam tão pouco perto do grande acontecimento que viria. Sua vida começaria agora...
Tantos detalhes deveriam estressá-la, mas, ao contrário, enchiam-na de uma delicada felicidade, suave como o véu que cobriria os seus ombros dentro de trinta dias. Saiu da gráfica e depositou delicadamente os convites no banco de trás de seu carro, como quem coloca para dormir seu bebê recém-nascido. Em seus pensamentos todos os detalhes eram repassados para certificar-se se estava tudo em ordem: “checar a lista de convidados, o bolo, os doces... e o vestido será que é esse mesmo? E o véu? Longo ou curto? Usarei véu? Sim, claro, foi assim que imaginei desde menina. Uma noiva que se preze tem de ter véu e grinalda! Será que me esqueci de convidar alguém? Sempre se esquece de alguém importante... Preciso reservar o hotel, lua-de-mel, passagem. Os documentos para o cartório. Mudarei meu nome de família? Não sei, trata-se de minha identidade, minha história... Mas minha história recomeça agora... Buquê, brincos, arranjos, cor da festa, o carro da noiva, o cabelo, a maquiagem, as luzes, a Igreja, a Ave Maria de Gounod, já posso ouvir, Ave Maria... luzes, tanta luz, o branco, o vestido, branco... tudo branco... De repente, a claridade da paz.
Os policiais encontraram os convites de casamento espalhados pela rodovia. O noivo sabia que o maior desejo da amada era casar-se de branco. Então, decide realizar o último desejo da amada, mesmo que não fosse ele quem a desposasse. E vestida de noiva, ela deixou-se desposar pela eternidade.
Aline Maria Magalhães
Outubro de 2009.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O inenarrável

A palavra pulsa em meu corpo
E a necessidade de narrar me inquieta
As palavras teimam em fugir de meus pensamentos
Para ocupar a folha em branco
Mas palavras são teimosas
Teimam em ser inexatas
E muitas vezes é justamente o inenarrável
Aquilo que eu queria dizer.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Que história vamos contar?

Antes de acabar esta copa da África do Sul, gostaria de aproveitar para postar um vídeo da escritora africana Chimamanda Adichie, que nos leva a refletir como o mundo vê a África baseado na história eurocêntrica que vem sendo passada ao longo dos anos.
Ela alerta para o perigo de se contar uma só história de todo um povo. Existem várias histórias que podem ser contadas deste povo, cada versão dependerá de quem conta a história.
Fico pensando qual será a versão da história que nós brasileiros iremos passar para o mundo na Copa de 2014. Vamos prosseguir com a versão de um país selvagem, exótico? O ex-otico depende da ótica de quem vê.
Vamos contar a história dos vencidos, dos colonizados?

Segue o vídeo da escritora que dispensa comentários, pois é muito articulada.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Fim da viagem de José Saramago

"No final, descobrimos que a única condição para a vida existir é a morte". (Saramago, 2005)

Faleceu hoje, aos 87 anos, o escritor português vencedor do prêmio Nobel de literatura, José Saramago.
Autor de livros polêmicos como "O evangelho segundo Jesus Cristo" que vendeu mais de 200 mil exemplares, Saramago também viu seu livro "Ensaio sobre a cegueira", com mais de 300 mil exemplares vendidos, ser transformado em filme, sob direção do brasileiro Fernando Meirelles. Na ocasião da estréia do filme, o escritor chegou a chorar de emoção, fato que mostra um pouco da personalidade do escritor que, apesar de posições duras na política ou em questões religiosas, era de uma imensa doçura e sensibilidade que transparecem também em seus escritos.
Apesar da avançada idade, o escritor continuou trabalhando até o último momento. Seu último livro foi publicado há apenas dois anos "A viagem do elefante" (2008) e ainda contava com um blog no qual escrevia regularmente.
Sua última postagem no blog data de hoje, 18 de julho, mesmo dia de sua morte. Suas últimas palavras atentam à necessidade da reflexão e filosofia no mundo atual. Veja suas ultimas palavras no blog http://caderno.josesaramago.org/2010/06/18/pensar-pensar/


sábado, 12 de junho de 2010

Receio

No último fim de semana estive novamente em minha querida Poços de Caldas/MG visitando a família, e, com a ajuda de meu irmão, conseguimos fazer mais um resgate de uma das poesias de papai, publicada há muitos anos no já extinto "Diário de Poços".
Outro clássico soneto do "Seu" Ary!

Receio

Pousa a cabecinha em meu ombro e sonha
Cisma tranqüila, quietamente e pensa
Que estás perdida na amplitude imensa
Do firmamento, ó minha flor tristonha!

Deixe que a turba lá de fora ponha
Em seu amargo pessimismo adensa
Treva dos males vem assim risonha
Plácida e meiga na ardorosa crença.

Guarde as mãozinhas em minha mão ansiosa
Cerre as pestanas de cetim e rosa
E eu cante o amor e viva na alegria

Triste alegria de te ver presente
E ter no peito esta dor latente
E este receio de perder-te um dia!

Ary Clayton de Oliveira

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ausência

Sempre uma ausência profunda
Sempre aquele instante eterno
Sempre a saudade de tudo me envolve.

É aquele vazio
de tua ausência
que me atormenta.

É a saudade
- palavra plena -
Que me persegue.

É uma espera constante a minha vida.
Espero os dias passarem, ou voltarem,
mas não voltam.

Porque Deus fez o mundo tão imenso
e os corações tão pequeninos?

(Aline Maria Magalhães - 21/09/2006)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Aniversário

Aniversários fazem-nos perceber de maneira diferente a passagem do tempo e da vida. Talvez seja por isso que algumas pessoas ficam deprimidas nessa data, porque parece quase inevitável pensar em todos os anos já vividos e planejar ou sonhar com aqueles que ainda virão. Eu fico muito grata pelos dias vividos e as conquistas que vieram da luta.
A passagem do tempo é percebida diferente conforme envelhecemos, porque quando criança, os anos demoravam tanto a chegar, a maioridade parecia algo tão distante no tempo, a escola parecia que era para a vida toda e esperávamos um ano tão longo para chegar o próximo aniversário! Agora, corremos contra o tempo, o tempo que foge acelerado, o dia que parece já não ter 24 horas e os anos passam sem que dê tempo de fazer o planejamos nem de viver bem os dias que correm. A areia do tempo escorre entre os dedos e vivemos apenas os poucos grãos que sobram..
Percebo que estou "amadurecendo" ou envelhecendo - prefiro amadurecer como fruta que fica mais saborosa madura, pois a palavra velho parece ligada ao que não tem mais serventia - quando vejo que o dia do aniversário já não tem mais o significado festivo de antes, apesar de ser muito grata por toda a vida bem vivida até agora.
Parece que ficamos mais reflexivos nesse dia, e uma ponta de tristeza bate ao ver que algumas memórias se tornaram tão longínquas, embaçadas e amareladas pelo tempo... e vem o medo de esquecer do tempo passado, dos detalhes da infância. A memória é traiçoeira, e as lembranças vem e vão quando querem.
Quando olho para trás, parece tanto tempo vivido, mas sou tão jovem ainda...
Já que não posso conter o tempo, espero aprender com a idade a viver melhor cada dia, aproveitar o instante, viver a vida em toda plenitude, preocupando menos com o amanhã.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Volúvel

Volúvel
Deixo o vento me levar.
Me desfaço,
Me dissipo
Não voltarei
Ao que eu era antes...

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Poema antigo

A doce espera do amor!
Os minutos são eternos,
Longos espaços para a saudade morar.

Meu coração abriga o desejo
Do teu retorno aos meus braços,
Reviver nossa paixão!

A vida aqui é monótona,
O tempo parece não passar,
Guardado do futuro, nestas frias montanhas.

Resta apenas a lembrança tua
Doce e antiga
Como flor guardada há anos dentro de um livro.

(Aline Maria Magalhães,
08 julho 2004)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Crônica - Estrangeira


Voltar às origens nos faz perceber o quanto a distância nos modificou. Aquele que deixa sua cidade natal, seu berço, sente uma saudade imensa de detalhes do cotidiano – broa de fubá, doce de leite caipira, pamonha de feira, biscoito de polvilho... Doce sabor de infância! Quentão de festa junina, cocada de festa de São Benedito, garapa da praça... A rua enfeitada pelas quaresmeiras em flor, o colorido dos ipês e seu tapete de flores efêmeras caídas ao chão. O frescor da água mineral tomada direto da mina.
Quando percebemos que todas essas coisas que no passado fizeram parte do cotidiano agora se tornaram especiais, pedaços de memória, doces lembranças, aí a gente percebe que se tornou um pouquinho estrangeiro, porque olha sua casa com olhos de visitante, de turista, que admira aquilo que é diferente, exótico, o que não encontra igual em sua terra.
E como também nos sentimos estrangeiros na terra adotiva, percebe-se que se é estranho em todo lugar, e que já não há mais um lugar para se chamar de seu.
Perde-se a casa, um pouco da identidade, e vive-se sempre à espera de um retorno – mas pra onde?


“O homem que acha a sua pátria agradável não passa de um jovem principiante; aquele para quem todo solo é como o seu próprio já está forte; mas só é perfeito aquele para quem o mundo inteiro é como um país estrangeiro”. 
(Ideal de 
Hugues de Saint-Victor, formulado no século XII. In.: 
TODOROV, 1988, p.245)


quarta-feira, 26 de maio de 2010

Microconto

Os microcontos vêm ganhando força na internet, principalmente com a nova onda do twitter. São contos escritos, em geral, entre 140 a 150 caracteres. O grande desafio é a concisão da narrativa, contar uma história da maneira mais sucinta possível.
É um exercício interessante!
O meu escritor favorito de microcontos é o Carlos Seabra(No twitter: @microcontos/ Blog: http://cseabra.utopia.com.br/microcontos/)
A ABL lançou um concurso entre os "twitteiros", e estou concorrendo com o seguinte microconto:

O mineiro queria conhecer o mar. Decidiu mudar-se, mas, ao comprar as malas, conheceu Marina e afogou-se em seus olhos azuis.



terça-feira, 25 de maio de 2010

Soneto de papai

Hoje lembrei-me do primeiro soneto que eu decorei em minha vida, de autoria de meu próprio pai!
É impressionante que passaram-se mais de 15 anos e eu nunca me esqueci, talvez devido à sonoridade fácil dos decassílabos, ou as rimas perfeitas.
Claro que quando decorei eu ainda era criança para observar se era ou não um soneto e qual a seria a qualidade dele! Para mim, era a poesia do papai e isso já era suficiente!
Pena que meu pai se deixou levar pelo toque do tempo e se desfez de tantos outros poemas. Só restou este, salvo pela memória de infância, que, infelizmente, não guardou o título da poesia.
Mas aí segue o que me lembro:

O gigante que cresce em minh’alma

Me dispõe a procurar com ardor

Um pouco de paz, um pouco de calma

Nas sendas deliciosas do amor.


Amar é a seiva natural da vida

É como beber o vinho que anima

Na alma gêmea da pessoa querida

Sendo feliz, assim, nessa doce sina.


O tempo passa e urge a aproveitar

Cada segundo, sugado para amar

Guardando de bom no coração


Guardando de bom tudo, tudo:

Carinho, amor, olhar mudo

O beijo ardente da paixão.

Leite Derramado


Começo hoje indicando a literatura de Chico Buarque que vem surpreendendo a cada nova publicação. Lendo seus quatro livros: Estorvo (1991), Benjamin (1995), Budapeste (2004) e Leite Derramado (2009), vemos claramente a evolução do escritor, pois cada narrativa parece superar a anterior, e o artista atinge seu auge (por enquanto!) com Budapeste.
Todos os três primeiros livros renderam roteiros para o cinema, mas, sem dúvida, o filme de maior sucesso foi Budapeste. Este, é uma adaptação do livro, e, portanto, quem leu o livro e vê o filme esperando ver exatamente o que encontrou nas letras de Chico vai com certeza se decepcionar. O livro é muito superior ao filme, como quase sempre acontece!
Pode ser que em breve também veremos Leite Derramado nos cinemas, afinal, o nome Chico Buarque já vende por si só!
De todos os quatro, Budapeste parece, ao meu ver (pois não é a opinião de muitos críticos) o melhor e Leite Derramado, apesar de seu inegável valor literário, não consegue superar a arquitetura magistral da narrativa de Budapeste.
No entanto, é dele que quero citar um trecho hoje, que mostra o prazer de ler um poeta/músico escrevendo um romance. Mesmo que a história não seja tão inovadora assim, as felizes escolhas poéticas do escritor e seus narradores apaixonantes e complexos, conferem ao leitor um prazer imenso ao mergulhar em sua literatura:

"Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta." Chico Buarque - Leite Derramado

Sobre o livro, a Globo News fez um especial que vale a pena ver: Segue o link para o vídeo do programa, com leitura de trechos do livro pelo próprio autor.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Pra começar

O título "Pulsão narrativa" quer explicar o que me leva hoje a abrir um blog. Para quem escrever? Quem vai ler? Não são essas questões que movem essa nova "blogueira" a escrever, mas uma "pulsão narrativa" que é incontrolável!
A pulsão de narrar, para leigos como eu, pode ser entendida como algo que nos impulsiona a narrar, contar e ouvir. É a necessidade que o grande Riobaldo de Grande sertão: veredas sente de contar sua história a fim de revivê-la, revisitá-la, compreendê-la, e é a mesma necessidade que todos nós também sentimos de dizer algo, seja em blogs, microblogs ou diários.
A internet nos possibilita essa facilidade de externar essa necessidade narrativa e partilhar com quem queira nossos pensamentos acerca de qualquer assunto.
Aqui pretendo partilhar pensamentos a respeito de crítica literária, alguns textos inéditos de minha autoria (poesia, microcontos e contos), sugestões bibliográficas, enfim, o que a pulsão de narrar me motivar no dia!
A quem se interessar, seja bem-vindo e dê sua opinião!